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EDUCAÇÃO MIDIÁTICA

O terror da desinformação

texto: Bernardo barros e eduardo sampaio

“Fake News”. É muito provável que em algum momento nos últimos anos você tenha escutado essa expressão. O termo faz referência às informações fraudulentas que são compartilhadas por meio da internet nas mídias sociais. O conteúdo falso ou distorcido é usado com o objetivo de manipular a opinião pública sobre diversos assuntos, em diferentes áreas da sociedade. No entanto, o cenário mais comum de encontrar uma distribuição em massa de fake news é, sem sombra de dúvidas, durante o período eleitoral. 

E tem quem acredite na mentira? Pior, tem quem compartilhe. No dito popular é sabido que “contra fatos não há argumentos”, e isso até poderia ser o suficiente para não cair na armadilha das fake news. Porém, muitas vezes, o conteúdo falso ganha mais visibilidade do que a própria verdade, do que o próprio fato incontestável.

 

Se a mentira tem tido mais engajamento que a verdade, isso sinaliza que é preciso, em caráter de urgência, falar sobre educação midiática, que a jornalista, antropóloga e coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta, Mariana Mandelli, define como “um conjunto de habilidades que você deve desenvolver para ler, acessar e participar do mundo conectado de uma maneira crítica e responsável, de uma maneira ética”.

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Apesar de ainda haver uma parcela significativa de brasileiros desconectados, nunca foi tão fácil ter acesso às ferramentas de criação de conteúdo, sejam os websites, blogs ou canais nas mídias sociais. 

 

Com a facilidade também vem a cautela. “É você aprender a consumir, a produzir conteúdos, mensagens e informações, o que você quiser no mundo das mídias online e offline, de uma maneira que você tenha noção do que você está fazendo e a responsabilidade na hora que isso será disseminado”, alertou Mariana.

 

Para a jornalista, "não é só o jornalismo que detém essa autoridade de dizer para as pessoas o que é importante que elas saibam”. Sendo assim, quem mais poderia falar sobre educação para as mídias? Os professores da rede de ensino público e privado. 

Do consumidor passivo ao produtor ativo

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Até o ano de 2020, segundo dados do Comitê Gestor da Internet do Brasil (CGI.br), o país alcançava o número de 152 milhões de brasileiros conectados (7% a mais em relação a 2019), o que implica em 81% da população acima de 10 anos com acesso à internet.

2020
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2019
Usuários de internet no Brasil
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Uma educadora midiática

Em Fortaleza, a professora Marina Sampaio Montenegro encontrou uma maneira de ensinar os alunos a consumir informação com objetivo de “contribuir com a educação para uma sociedade melhor”.

 

Quando questionada sobre a importância da alfabetização midiática nos tempos atuais, a professora analisa: “Acho importante e necessário. Mas ainda, talvez, não tenhamos parâmetros para o desenvolvimento dessa educação, desse processo mesmo. Acho que é ainda preciso desenvolver parâmetros e diretrizes para trabalhar nesse sentido. No começo é necessário uma equipe multidisciplinar, talvez, para pensar, né”. 

 

Marina Montenegro acredita que cada vez mais serão necessários múltiplos olhares, englobando nisso profissionais da linguagem e do jornalismo. Afirmando que, na atualidade, não tem mais como pensar sozinho. Ela avalia que o conhecimento sobre a variedade de gêneros textuais e o entendimento dos gêneros midiáticos como comunicação podem ser ferramentas de combate às fake news. “Porque muitas vezes não é sequer uma notícia e sim um boato que é repassado em cima de uma imagem, de uma colagem qualquer”, complementa. 

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Uma outra questão abordada por Marina é o uso da ética nas redes sociais, que considera um debate transdisciplinar importante no ensino médio. As aulas dela também estimulam aspectos socioemocionais a partir de conversas com os jovens a respeito do cyberbullying, de como evitar a superexposição nas mídias e de como respeitar os colegas.

 

A professora quer desenvolver um projeto com outras professoras da escola.

 

Quanto à relação dos jovens com as mídias, a professora destaca que esses usuários da atual geração têm uma relação mais instantânea. “Acaba sendo mais perigoso também, então a gente pensa enquanto escola […] Fazer projetos, envolver mais esse debate e evitar até futuros problemas mesmo”, destaca.

 

A mesma fala a respeito de uma disciplina no ensino médio estadual chamada de “Núcleo de Trabalho, Pesquisa e Práticas Sociais”, sendo esta parte do currículo dos estudantes. Envolvendo aulas de convivência com interação entre os jovens, tal disciplina traz menos teoria e mais vivências.

Marina informa que o assunto chega a ser abordado em reuniões com os pais dos alunos, bem como outros temas mais abordados, mas é “muito genérico, não existe um trabalho específico para os pais, não […] Aí já seria um projeto de comunicação comunitária, já seria uma ampliação. É isso aí, o desafio é grande”.

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Cópia de Escola.heic

Educamídia

Detectando a ausência de políticas públicas que orientem projetos de educação midiática, o Instituto Palavra Aberta criou o programa Educamídia, em 2019. A proposta, de acordo com Mandelli, é desenvolver por meio da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a capacitação dos profissionais de educação. "Como a gente não consegue abraçar a sociedade toda, no caso a sociedade brasileira, a gente escolheu um público pra gente atuar, que é o público da educação formal, digamos assim. A gente atua com professores para que eles formem os alunos. As crianças, os adolescentes e os jovens”, afirma. 

 

Seguindo com os ditos populares, “quem não tem cão, caça com gato”, ou, também casaria perfeitamente “juntando o útil ao agradável”. Assim, é o cenário em que acontecem as atividades do instituto, que viu na BNCC a oportunidade de avançar no combate à desinformação, no enfrentamento às fake news. 

 

A Base prevê no currículo mínimo das escolas o desenvolvimento de áreas como campo jornalístico-midiático, assim, os alunos devem sair da escola sabendo a diferença entre um texto jornalístico e um texto publicitário. Bem como, utilizar as técnicas jornalísticas de investigação, de apuração de informações para você constituir conteúdos, construir textos e realizar pesquisas. 

 

A BNCC prevê obrigatoriedade do ensino midiático nas escolas, que podem inserir a disciplina na criação da matriz curricular. “Como os professores teriam que passar a lidar com esses conteúdos, e com a educação midiática em sala de aula, a gente encontrou essa oportunidade para formá-los por meio de cursos que a gente oferece”, afirmou a coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta.

 

Mandelli também ressalta que todo o material do Educamídia é gratuito. “Quando eu digo conteúdo, eu tô falando de livros, obras, guia da educação midiática, planos de aula, tutoriais para você desenvolver atividades diversas de diversos temas. ‘Quero trabalhar meme em sala de aula, como eu faço?’ Tem um plano de aula falando sobre isso, pra você aplicar em qualquer disciplina, pode ser um professor de biologia, história, enfim, dessa maneira”, concluiu. 

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Ilustrações: Bernardo Barros

“Como os professores teriam que passar a lidar com esses conteúdos, e com a educação midiática em sala de aula, a gente encontrou essa oportunidade para formá-los por meio de cursos que a gente oferece”

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