
O FLUXO DE UM PROBLEMA QUE SANGRA
O problema social que não é absorvido
O sangue derramado que todos os meses suja as roupas de mulheres da periferia parece invisível a sociedade. Para amenizar o problema, uma mulher decide batizá-lo como “Sangue Nosso”.
Os sacos foram colocados na mesa e logo uma multidão de gente foi se aglomerando à volta. Chovia forte, mas nada o suficiente para impedir a participação na entrega. “Somente pessoas que menstruam, somente pessoas que menstruam”; bradou Larissa Maia, publicitária, idealizadora do projeto “Sangue Nosso” e principal responsável por doar mais de 5.000 kits com absorventes e produtos de higiene para pessoas que menstruam e vivem em situação de vulnerabilidade social.
Logo no início da pandemia, Larissa despiu-se de suas dores e resolveu olhar para o próximo. Em suas primeiras ações, doando alimentos a pessoas em situação de rua, se deparou ao uma mulher tomava banho na rua em um cano quebrado. A cena chamou sua atenção e reacendeu velhos incômodos.

Ao assistir a cena não conseguiu deixar de pensar: “O que ela faz quando está menstruada?” Por isto decidiu distribuir kits com itens como absorvente, creme dental, calcinhas, escova e pasta dental e entre outros produtos de higiene individual e coletiva.
Meninas, mulheres, pessoas trans e pessoas não binárias menstruam, durante aproximadamente ⅙ do ano, mais ou menos 60 dias, a depender do ciclo. Essas pessoas expelem de si sangue um ou líquido vermelho parecido com sangue.

Um processo que poderia ser simples e natural do corpo, torna-se algo preocupante, pois muitas dessas pessoas não possuem as condições necessárias para uma higiene básica ou sequer entendem o que está acontecendo com seu corpo. Por isto, Larissa inclui também o acesso à informação como direitos básicos: “ é sobre devolver a dignidade àquelas pessoas'', diz Larissa, expressando seu principal objetivo.

DIGNIDADE
Ao visitar comunidades na cidade de Fortaleza, a publicitária comenta sobre a realidade que se depara, cenário que escancara os abismos sociais existentes.
"Em muitas casas, casebres, os chão é batido, o esgoto é a céu aberto, não se tem banheiro digno. A gente precisa entender que a pobreza menstrual está além de possuir um absorvente”. Não ter o mínimo para um momento de asseio é um duro fato que atinge cerca de 1,5 milhão de brasileiras, que vivem em residências sem banheiros. (BRK AMBIENTAL, 2108)
A pobreza menstrual não atinge somente aqueles que se encontram em situação de rua e o problema não está somente sobre a falta de produtos. Ela está presente na escolha de poupar alguns trocados ao não comprar um absorvente, sabonete ou papel higiênico, para completar o de comer.
Ciclos intensos, com um fluxo forte de sangue e cólicas menstruais atrapalham até a mulher mais preparada. Meninas que não possuem o básico deixam de ir à escola em seu período menstrual, mulheres faltam ao trabalho e isso só vai gerando traumas ligados a um processo tão comum do corpo feminino.
E esta realidade atinge em principal a mulheres que encontram-se em localidades de baixos índices de desenvolvimento humano. Muitas delas, por não possuírem o mínimo para sobreviver, utilizam do “paninho”, retalhos no lugar do absorvente. Esse pano, quando não lavado corretamente, pode gerar problemas à saúde dessas mulheres. É como um efeito em cadeia, como uma grande bola de neve, um problema puxando outro e atingindo em cheio as mulheres que nas beiradas dos grandes centros urbanos.

DOANDO
INFORMAÇÃO
Ao visitar as comunidades em Fortaleza, a publicitária também leva informação às meninas e mulheres ali presentes, como acontece na comunidade do Vicente Pizon, aglomeração citada no início desse texto. Sempre com o auxílio dos centro comunitários ou de associações do bairro, Larrisa se aproxima das mulheres e conversa de perto com elas.
“Papo menstruação tem que ser conversado com todos. Todo dia, toda hora é natural”. Muitas adolescentes veem de um clico de desinformação, onde ensinamentos sobre seus corpos foram negados a suas avós, mães e agora a elas.
De forma descontraída tenta passar informação, ensinar a meninas que tiveram sua menarca um pouco sobre o que ocorreu com seu corpo. Tirar dúvidas e principalmente falar sobre os processos do corpo feminino. Por que não naturalizar algo sagrado, que segundo a bíblia cristã representa a vida? Através de um trabalho que pode aparentar simples, mas que envolve uma enorme organização para arrecadar cada item que vai nós kit’s, a publicitária consegue humanizar um pouco esse processo natural do corpo.