
A roda da economia também gira na periferia
Empreendedores periféricos garantem não apenas o sustento da sua família, mas de outros moradores e comerciantes
Às 15 horas da tarde de uma terça-feira chuvosa, a mesa está quase pronta. Diferente do habitual, está na sala da residência. Em dias de sol, os quitutes ficam expostos sobre a mesa na calçada que é quase inexistente. Mesmo com o clima desfavorável, os clientes começam a chegar. Alguns esperam pelo salgadinho que ainda não está pronto ou pelo pudim que ainda vai ser embalado.
De repente falta um ingrediente para completar uma encomenda e a confeiteira precisa ir correndo ao mercadinho mais próximo para comprar o produto. É assim que Ana Maria Magalhães, 33, gera renda para sua família e mais três pessoas que trabalham com ela. A rotina do negócio próprio era algo inimaginável quando Ana aceitou a encomenda de uma amiga que queria um kit de aniversário
“Nunca pensei que eu fosse trabalhar nesse ramo. Eu não sabia nem fazer um bolo, mas lembrei de uma receita que a minha chefe me ensinou, então eu fiz e deu certo”, explica Ana. A partir dessa primeira empreitada que ela decidiu largar o emprego de cozinheira e iniciar seu empreendimento.
Após seis anos no mercado, a confeitaria D & A movimenta não só o seu caixa, mas o comércio do José de Alencar, bairro periférico localizado na grande Messejana, em Fortaleza. Ana e seu marido, Daniel Magalhães, 29, já têm uma vasta carta de clientes tanto do próprio bairro quanto de outros. A maioria dos clientes vem por indicação, segundo a empreendedora. Isso porque ainda falta ao casal um pouco mais de tempo e planejamento para divulgação em redes sociais.

Dentre as dificuldades de empreender na periferia, Ana destaca que além de não conseguir comprar todos os seus insumos no bairro onde mora devido aos preços, o aumento da concorrência também dificulta a precificação dos seus produtos. “Quando eu comecei aqui não tinha ninguém fazendo a mesma coisa, agora são vários. Então tem que vender barato, porque senão os outros vendem mais barato ainda”, afirma.
A segurança também já foi um fator de dificuldade, segundo ela. A empreendedora explica que houve um período em que alguns clientes não iam ao seu estabelecimento por medo. O que ajudou a manter as vendas foi a decisão de fazer entregas em domicílio.
A ocasião de empreender
Ao contrário de Ana Maria, a atendente de padaria Irineuma Gomes, 44, resolveu montar seu negócio após ficar desempregada. Um restaurante de massas na garagem de casa foi a solução para tentar manter a sua renda logo no início da pandemia de covid-19. Há cerca de dois anos, o Macarrão da Neuma tem sido a única fonte de renda de Irineuma e seu marido Elenildo Linhares, 42.
Além disso, o empreendimento, localizado no bairro Granja Lisboa, conta com dois colaboradores. “Todos os dias tem uma moça que trabalha lavando as louças e nos fins de semana um rapaz fica com o atendimento pelo WhatsApp e telefone”, explica Irineuma. Os dois são também moradores da periferia do grande Bom Jardim.
A segurança não é um fator que implica nos negócios da empreendedora, já que, segundo ela, o bairro é tranquilo. Por isso também, é possível realizar entregas em dois bairros vizinhos, o que facilita o aumento das vendas. A principal dificuldade é a aceitação dos clientes em relação aos preços dos pratos. “Tem cliente que reclama. Alguns acham caro por exemplo uma macarronada de camarão por R$ 20”, afirma.

A empreendedora, que sempre trabalhou para terceiros, explica que nunca teve um suporte para auxiliá-la na tomada de decisões como a precificação dos seus produtos e serviços. Ela toma como base a sua experiência anterior, já que na padaria em que trabalhava vendia o mesmo tipo de prato que ela vende. Outra forma que ela encontrou de precificar seus produtos foi pelo preço dos concorrentes.
Empreendedorismo é para todos
Apesar da falta de conhecimentos no mundo dos negócios, as duas empreendedoras arriscaram iniciar algo a partir da vivência ou necessidade do momento. O lugar onde moram não foi sequer um obstáculo para que elas entrassem no ramo do empreendedorismo. A periferia também é lugar de empreender, de lucratividade e de sustento. De acordo com a empreendora social e fundadora da Social Brasilis, Manú Oliveira, há uma grande potência econômica na periferia. Confira abaixo: