
Do terraço das favelas à esperança dos gramados do mundo
transformando ausência em talento
Por Luís Carlos Silva
Apita o árbitro, começa agora a grande decisão da vida de milhares de jovens. Pelo menos é assim que funciona o jogo para a juventude da quebrada. Em meio às mais diversas dificuldades, o futebol dentro das favelas significa uma oportunidade e procura ajudar as periferias na resolução de alguns problemas como a miséria e a violência.
O Brasil, por ser o maior campeão da Copa do Mundo da Fifa com cinco títulos, recebeu a reputação de país do futebol. Este símbolo não se limita às páginas da história e se estende ao cotidiano de alguns brasileiros. Não à toa, desde cedo jovens e suas famílias se dedicam em peneiras realizadas por clubes para conseguir realizar seus sonhos.
Dentro das comunidades, essa realidade não é diferente. O contato com o futebol pode até ser considerado mais intenso, seja pela torcida pró time do coração, pela disputa no torneio do bairro ou pelo desejo de ser uma estrela dos gramados.
Além disso, as periferias passaram a ser consideradas pelos olheiros de times o principal celeiro de talentos.
Ademais, um levantamento realizado pela imprensa nacional, baseado em relatos e arquivos pessoais, revelou que a maioria dos atletas que disputaram a última Copa do Mundo (2018) pela seleção brasileira foram em sua maioria jogadores de raízes periféricas.
Contudo, apesar dos sinais de ausência, os exemplos revelam que a quebrada é também espaço de existências que sobrevivem as exclusões aguardando apenas incentivos e oportunidades para demonstrar seus talentos.

Organização e atletas celebram mais uma edição da Taça das Favelas - Imagem: Daniel de Araújo Ferreira
Taça das Favelas: ressignificando a periferia e promovendo esperança
Uma pesquisa realizada no ano de 2021 pelo Instituto Data Favela, em parceria com a Locomotiva - Pesquisa e Estratégia e a Central Única das Favelas (Cufa), apontou um dado alarmante:

"Muitos jovens que montam suas escolinhas, elas têm na verdade, pouca oportunidade, falta de material, falta de equipamentos, falta de estrutura. Então, a partir dessa lógica do “sem nada” a gente começa a construir com eles”, afirma Francisco Wilton (Piqqueno), presidente estadual da Cufa Ceará.
Além disso, o projeto é compreendido como mecanismo para a construção de um país melhor e procura fomentar o desenvolvimento da cidadania. Piquenno relata que a formação do jogador é consequência do processo o mais importante é a interação entre as periferias, a compreensão da cultura periférica e a possibilidade de participação social.
“O ideal é fazer esse intercâmbio entre as favelas e as comunidades. E a partir daí construir esse carisma em cima de um estigma. Hoje a gente tem aqui diversas favelas, diversas comunidades de diferentes territórios de Fortaleza que para alguns existe conflito, mas para nós existe uma solução através do diálogo e do esporte”, conclui.
O torneio, considerado a maior competição entre favelas do mundo, impactou diretamente 12 mil jovens, neste ano, no Estado do Ceará.
Antonio Disio, 15, capitão da equipe Pegazus, do Jardim Iracema, participou da competição pela primeira vez. Ele se diz honrado pela oportunidade e destaca a visibilidade do evento. “É uma honra para mim está jogando. A Taça das favelas está dando uma oportunidade para todos os jovens de Fortaleza estarem sendo espelhados para outros clubes”, ressalta o zagueiro vice-campeão da edição de 2022, no Ceará.
No entanto, embora a situação dentro das favelas brasileiras seja adversa e marcada por esse tipo de carência, é possível encontrar ainda nesses territórios um otimismo que, frequentemente, se transforma em esforço e busca ressignificar o conceito de favela e ofertar ao favelado um amanhã melhor.
Nessa perspectiva do otimismo, nasce o projeto da Taça das Favelas, que desde de 2011 viaja o país para tentar influenciar positivamente a vida dos mais jovens. Organizada pela Cufa, a Taça das Favelas é uma iniciativa que reúne equipes de futebol oriundas das periferias com o intuito de promover inclusão social e ajudar o poder público na redução das desigualdades, por meio do esporte.

Equipe The Blessed Futebol Feminino vence nos pênaltis e garante título na modalidade - Imagem: Daniel de Araújo Ferreira
Elas podem tudo, inclusive jogar futebol
A proposta da Taça das Favelas não se limita ao futebol masculino. O projeto também procura atender e incentivar a demanda feminina das favelas que deseja igualdade e prestígio com as chuteiras. A comprovação disso é a alta adesão de equipes majoritariamente de mulheres, na recente edição da competição disputada em Fortaleza.
Enquanto em 2019 apenas 6 equipes femininas efetuaram inscrição na competição, em 2022 esse número saltou de maneira expressiva para 45 times. Piquenno celebrou o aumento e declarou que esse avanço decorre das chances que o torneio se propõe a oferecer a todos. “São as oportunidades, são as chances. A gente quer construir com essa juventude e estamos à disposição dos meninos e meninas para buscarmos os sonhos juntos”, afirma.

Equipe The Blessed Futebol Feminino termina como a melhor defesa da competição - Imagem: Daniel de Araújo Ferreira
Agarrando sonhos
Poderia ser mais uma iniciativa comum na vida de Dinorá Braga, 24. Mas, o projeto esportivo The Blessed, do bairro Jangurussu, através da Taça das Favelas, tratou de transformar a sua história. A jovem, fã da goleira Bárbara Micheline, é mais uma menina que encontra no futebol a chance de alterar a lógica e representar o talento das minas.
Ela chegou focada à Arena Murilão, na Messejana. Aquela final era considerada o jogo da sua vida e o resultado não poderia ser diferente da vitória. Embora no tempo normal o placar tenha insistido na igualdade, nos pênaltis o talento da pequena goleira foi o suficiente para agarrar a taça e levar a torcida ao delírio com a conquista. Conquista essa de um povo que, apesar das carências, tenta sobreviver e ser, minimamente, feliz com o auxílio do esporte.
A atleta faz questão de expor a gratidão a sua equipe pela atuação em sua vida, além de destacar a importância do projeto no seu desenvolvimento. “Pra mim hoje o The Blessed foi a porta de entrada na faculdade. Foi um projeto que me auxiliou de todas as formas possíveis, tanto na forma pessoal quanto profissional. Eles me acolheram muito bem”, relata.
E finaliza saudando a Taça das Favelas por toda a organização. “O projeto da Taça das Favelas vem revelando muitos nomes. A gente viu equipes de altíssima qualidade. Queria agradecer os projetos sociais que estão fazendo a sua parte e que nos proporcionaram um show de bola. Organização perfeita do evento”, conclui.
A arqueira agora se dedica aos estudos da faculdade de Educação Física e procura se aperfeiçoar cada vez mais nas diversas possibilidades do esporte. Esta é uma entre tantas histórias que nascem dos campos das periferias para ganhar o mundo.