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A CIDADE ESQUECIDA

Oque conta a história de uma cidade? Fortaleza pode não ter voz, mas tem seus monumentos que relatam sua história. As estruturas erguidas pelos antepassados alencarinos, em si, não contam nada, porém, os motivos pelos quais elas foram levantadas dizem muito sobre quem somos (e como estamos), é o que afirma o arquiteto Antônio Marcio Cavalcante. “O Coliseu, as Pirâmides do Egito, o Arco do Triunfo, não só contam a história do povo que habitou ali, mas de quem a humanidade é. O mesmo acontece com a capital cearense”, explica Antônio.

 

 

Segundo dados do Instituto Municipal de Desenvolvimento de Recursos Humanos (Imparh), dos 64 bens tombados em Fortaleza, 55 ficam em bairros “centralizados”, como Aldeota, Meireles e Centro. Apenas nove ficam fora desse eixo. De acordo com o promotor de Justiça do Ministério Público do Ceará (MPCE) e coordenador do Centro de Apoio Operacional de Proteção e Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural (Caomace), Ronald Fontenele, três deles estão em mau estado de conservação.

 

O historiador Miguel Ângelo de Azevedo, conhecido como Nirez, contou a reportagem como a Estação Ferroviária da Parangaba, a Casa do Português e a Casa da Raquel de Queiroz fazem parte dos monumentos esquecidos da cidade.

Em 1941, quando inaugurada, a Estação da Parangaba teve forte influência no desenvolvimento econômico e social do Ceará, pois operava como ponto de apoio para o embarque e desembarque tanto de passageiros como de alguns animais e mercadorias, facilitando assim o escoamento da produção agrícola entre diferentes cidades do estado.

A Estação já correu sérios riscos de ser demolida, pois o projeto Metrofor passava por dentro do equipamento. A ideia inicial era fazer um viaduto no lugar da estação. Porém, devido à mobilização dos moradores do bairro, e posteriormente de toda a cidade, a Prefeitura de Fortaleza tombou o imóvel em 2007.

Diferença entre a fachada da Estação da Parangaba de 1941 e a atual. Foto: acervo Fortaleza em Fotos. Direcione o mouse para a esquerda ou para direita ver a diferença.

O que é visto hoje é uma memória manchada com pichações, sujeira e tinta desbotada.

Foram mais de 13 anos (de 1940 a 1953) para erguer o projeto arquitetônico da Vila Santo Antônio, conhecida popularmente como Casa do Português. Com três andares monumentais, arcos na fachada e uma rampa lateral que permite tráfego de veículos por todos os pavimentos, a moradia significava um símbolo do poder aquisitivo ostentado pelo primeiro dono e idealizador do prédio, o comerciante português José Maria Cardoso.

 

O prédio também “hospedava” a Boate Portuguesa e a sede da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Emater/CE). Posteriormente, a Casa do Português serviria de oficina, lanchonete e cortiço.

 

Antônio José, 54, morador do bairro Damas, conta que a casa sempre foi algo mitológico para a região, alvo de diversas histórias e lendas urbanas, mas que hoje o equipamento precisa de um restauração. “Acho ela espaçosa, grande, mas precisa de uma bela reforma”, afirma.

Fachada da Casa do Português sem pichações em 1950. Foto: Acervo Fortaleza Nobre. Passe o mouse por cima da imagem para ver a diferença 

A Casa do Português é vistosa para quem passa pela avenida João Pessoa, mas para quem deveria zelar por ela, parece que nunca esteve ali.

Uma vida dedicada à literatura, à arte e ao romance, Rachel de Queiroz foi uma das mais importantes escritoras brasileiras. As obras “O Quinze” (1930) e “As Três Marias” (1939) ficarão eternizadas na literatura brasileira. Na residência da imagem acima foi onde a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras morou quando escreveu os seus maiores clássicos.

O lugar, também conhecido como Casa dos Benjamins, é um bem tombado pela Secretaria da Cultura de Fortaleza desde 2009.

A casa de Rachel de Queiroz, assim como os outros dois patrimônios mencionados, quase foi demolida na década de 1970. Porém, a força e perseverança dos atuais moradores da residência fizeram com que a estrutura permanecesse em pé, como conta o fotógrafo Gentil Barreira, idealizador do Grupo Casa dos Benjamins, que promove ações de restauro e criação de um espaço cultural no lar. “As pessoas que atualmente moram lá possuem a autorização do proprietário e, provavelmente, graças à elas, a casa ainda está lá”, afirma.

O “apelido” da casa faz referência aos pés de benjamins que estão em frente à residência, mas que escondem a fachada mal preservada da moradia do maior nome da literatura cearense.

Há 5 anos, o mato não era tão grande na Casa da Raquel de Queiroz. Foto Divulgação Secult. Arraste o cursor com o mouse para ver a diferença 

NOTA DA SECULT

Apesar de estarem em estado de degradação, a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secult) comunica que faz periódicas inspeções nos lugares mencionados, e que bens de propriedade privada (como é o caso da Casa da Rachel de Queiroz e da Casa do Português) devem ser mantidos em estado de conservação pelos proprietários.

 

“O bem tombado não pode ser demolido, destruído ou mutilado, podendo ser restaurado ou reparado pelo proprietário, mediante prévia autorização da Secultfor. Informamos que os técnicos da Secultfor realizam visitas regulares nestas edificações a fim de verificar o estado de conservação desses imóveis. No entanto, no caso dos bens de propriedade privada, asseguramos que é dever do proprietário do bem tombado mantê-lo em bom estado de conservação”, informou por meio de nota.

TEXTO E FOTOS DE PAULO ANDRÉ SALES


REVISÃO E ORIENTAÇÃO DE EULÁLIA CAMURÇA

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